Blog

615aa-oovodogoneareparticcca7acc83odeintensidades
Cartografando a experiência

Posted by    |   maio 17th, 2014   |   No Comments

A Cartografia é a arte de desenhar mapas. Mas pode também ser usada para definir o modos operandi de uma atitude por meio da qual podem ser vividas, vistas, revistas, sentidas, escolhidas e editadas as experiências na vida. Trata-se de uma proposta construtivista, por meio da teoria das multiplicidades, para pesquisa-intervenção e produção de subjetividade, sistematizada pelos pesquisadores brasileiros Eduardo Passos, Virgínia Kastrup, Liliana da Escóssia e Sueli Rolnik, entre outros, em seu livro “Pistas do método da cartografia”. O conceito deriva do pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari, franceses do século XX, e tem como um de seus importantes marcos o texto Rizoma, publicado inicialmente por D&G de forma isolada em 1980, e que depois tornou-se a introdução da série Mil Platôs, dos mesmos autores.
Rizoma descreve a experiência de cartografar, que seria a produção de uma rede de conexões, com a intenção de mobilizar uma outra leitura, uma outra escuta, ou mesmo a utilização de todos os sentidos ao mesmo tempo enquanto se está em campo de pesquisa. O pesquisador cartógrafo está implicado, mergulhado por inteiro no campo. Ele não é mais apenas observador imparcial, até porque esta idéia é ilusória, já que a própria presença do pesquisador já modifica o meio de pesquisa. O cartógrafo então se coloca disponível dentro deste coletivo de forças, atravessamentos, afetos, nos platôs que são as zonas de intensidade independentes e interconectadas. Esta idéia de rizoma como a raiz de uma planta nos ajuda a entender até mesmo a forma como naturalmente pensamos ou como o conhecimento se organiza, de acordo com a interação com o mundo.
No texto Como criar pra si um corpo sem órgãos, que consta no volume 3 da série Mil Platôs, D&G referem-se ao corpo não funcional, o corpo de intensidades: “O corpo é tão somente um conjunto de válvulas, represas, comportas, taças ou vasos comunicantes: um nome próprio para cada um, povoamento do CsO, Metrópoles que é preciso manejar […]. O que povoa, o que passa, o que bloqueia?”
Muito diferente da proposta de rizoma é a estrutura tradicional de uma pesquisa hierárquica, em forma de árvore, vertical, com começo, meio e fim, uma unidade. Assim é a maioria dos livros produzidos no ocidente, por exemplo. Mas D&G propõem a estrutura aberta e horizontal, rizomática, em que se tem perguntas como pontos de partida, e se mantêm constantemente conexões, guiadas por aquelas perguntas, mas sem um percurso pré-estabelecido. Com o caminhar, ao perceber que se está de novo recaindo numa fórmula engessada, se traça uma linha de fuga, para uma nova e ainda não explorada rota, completamente própria daquele objeto de pesquisa, daquele contexto em seu determinado tempo e com linguagem adequada. Admitindo-se que a realidade não se repete um segundo sequer igual ao outro, não faria de qualquer maneira sentido repetir fórmulas para se chegar a resultados esperados, e sim cria-las conforme as circunstâncias demandam e, em resposta às demandas observadas e captadas pelos sentidos, deixar emergirem respostas.
Sendo assim, não há risco de não se chegar no resultado esperado, pois não há um resultado esperado, e sim a construção das respostas conforme se caminha. A multiplicidade é advinda não só do inconsciente, mas torna-se também parte do processo consciente de percepção e resposta. Rizoma é uma multiplicidade heterogênea sem unidade, mas com a possibilidade de conexão, sem hierarquia, sem centro, sem organização piramidal. O rizoma não produz significação, mas rotas de fuga. É um mapa, resultado de um processo cartográfico, mas é um rascunho sempre, é processo, implica em constante transformação. Até pode ter um planejamento, mas este pode ser modificado conforme se caminha nas conexões, relacionamentos, atravessamentos. Segundo D&G, há muitas entradas possíveis, muitas saídas possíveis. É possível percorrer o caos, o caos é possibilidade, mas se há somente caos absoluto não ocorre produção, e sim apenas loucura.
O rizoma e a árvore não são necessariamente opostos. Dos rizomas nascem árvores, e das axilas dos galhos das árvores podem surgir novas rotas de fuga, dando origem a novos rizomas. Toda árvore é um possível rizoma. Mas todas as linhas de fuga que deram origem a um rizoma sempre são facilmente capturadas pelos padrões. Exemplos disso são, na cultura, o movimento punk, ou o hippie. Portanto cartografar exige esforço constante e incansável.
Sobre os perigos de, ao usar um método tão aberto, perder-se no caminho, tornando-se a construção de respostas inócuas ou anêmicas, D&G alertam sobre a necessidade das injeções de prudência, de se ter algumas linhas ou fios condutores, para haver produção e alguma inteligência. Cartografar forças que compõem determinado fluxo. Para isso é preciso ser capaz de medir e administrar as intensidades, as medidas, pra que as tensões que surgem sejam tensões de relacionamento e não de ruptura, que não possibilitariam pesquisa e criação. Estas medidas não são pré-definidas, mas constituídas ao longo da pesquisa, do caminhar.
A cartografia se opõe à cópia, à reprodução. Mapear é diferente de decalcar. Mapa é produzido ao longo do percurso, como quem está percorrendo um espaço e vai construindo o mapa simultaneamente. É a própria atividade de cartografar. Mas ainda seria possível colocar um novo mapa sobre uma cópia, decalca-lo porém mapear sobre ele. Criar, proliferar, multiplicar sobre a cópia. O rizoma é uma instância de produção de desejo, porque é aberto. E o desejo pode ser usado como fonte de produção. A cartografia é a garantia de que o manejo com as experiências da vida seja legítimo, genuíno, de que não se torne uma cópia, um clone de outras experiências.
 
Referenciais bibliográficos
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix. Rizoma. In Mil Platôs, Vol. 1. São Paulo: Editora 34, 2011.
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix. Como criar para si um corpo sem órgãos. In Mil Platôs, Vol. 3. São Paulo: Editora 34, 1999.
PASSOS, E.; DA ESCÓSSIA, L.; KASTRUP, V. Pistas do método da cartografia – pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2012.

Ps.: Este texto foi inspirado em minhas leituras e notas de aula durante a disciplina “Pesquisa em artes – a cartografia como método”, ministrada pelos professores Renato Ferracini, Sérgio Carvalho e Silvio Galo na pós-graduação do Instituto de Artes da Unicamp, durante o segundo semestre de 2013. 

Deixe uma resposta