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sangue
Ode à Lua Nova

Posted by    |   abril 11th, 2018   |   No Comments

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Ode à Lua Nova

Em alguns ciclos pode ser doloroso menstruar. Doloroso sangrar, ver e sentir esse sangue se esvaindo de dentro, quente. Mesmo que seja por um serviço ao humano. Sim, da mesma forma que gestar um filho é serviço humano, menstruar também é parte desse ciclo, desse serviço. O útero descama, troca de pele, recomeça a cada mês, revitaliza-se, para melhor acolher um novo projeto possível. Sim, menstruar é um serviço. Mas é também algo mais.

Em alguns contextos socioculturais, menstruar é visto como apenas uma das consequências do (não) gestar. E então assim começa a longa história do inferior valor atribuído à menstruação. Por simbolizar a negativa do acontecimento da gestação, aquele serviço humano que deveria ter sido prestado, afinal é pra isso que as fêmeas servem, a menstruação foi recebendo, geração após geração de nossos antepassados, estatuto de impura, imprópria.

Simone de Beauvoir me visita: hoje tal serviço é pouco ou nada reconhecido, tendo-nos tornado parte da sociedade utilitarista, pautada na produtividade que visa riqueza monetária. Menstruar pra quê? Viver um desconforto pra quê, se já temos tecnologia pra subtrair tal evento de nossas vidas?

O corpo ressente-se. A psique consciente e inconsciente ressente-se. Ressentimento ancestral, desde que deixamos de crescer livres, mesmo tendo nascido livres. Temos tido que obedecer a muitos códigos morais. Nosso corpo sendo amarrado em espartilhos concretos e simbólicos.

Esse sangue que se derrama devagar, denso, viscoso, vermelho demais, vivo demais, e quente de nossas entranhas, só porque somos mulheres, representa uma não gestação que, desejada ou não, impossibilitou-se. Por escolha ou não, a mulher sangra suas impossibilidades. Sangra seu não, mesmo que por escolha. Sangra sua condição de mãe potencial. Fêmea socializada. Aculturada. Adestrada.

E sangra suas escolhas com louvor. Sangra sua força, potência criativa da natureza bruta. Cadê a mulher selvagem? Cadê a mulher subterrânea? Pode essa mulher ser livre em sua selvageria? Pode? Ou tem que esconder seu sangue? Fingir que ele não existe? O que é das entranhas, estranho, incomoda.

Por tudo isso pode doer sangrar mês a mês. Mal se recompôs de um e já é lançada involuntariamente ao novo esvair-se.

Mas pode ser também que o contato com esse mesmo sangue quente das entranhas, derramado num pequeno cálice feito de silicone, também desenvolvido nessa mesma era tecnológica, cuidadosa e gentilmente colhido das entranhas, traga a sensação de grande potência vital. E desperte na mulher o desejo de dançar movendo-se pra dentro da noite escura de Lua Nova. E não será uma questão de coragem, mas de irremediável impulso, de natural, crua tendência. Para o envolver-se com as sombras e suas projeções. Para o flerte com o proibido. O brinde com o infinito buraco negro de possibilidades.

E depois, ela retorna das raízes subterrâneas à flor do solo. Põe-se de pé, e retoma seu ciclo. Agora um pouco mais dona de seus mistérios.

Texto: Fabiana Rodrigues Barbosa. Foto: Vibra Saúde.

 

 

 

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