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Templo de Apolo, onde atuava o oráculo de Delfos. Imagem © http://thechestofdreams.blogspot.com.br.
Yogues, gregos e psicanalistas

Posted by    |   novembro 17th, 2013   |   No Comments

Templo de Apolo, onde atuava o oráculo de Delfos. Imagem © http://thechestofdreams.blogspot.com.br.

Delfos Gnoti Sauton

A inscrição grega na placa acima estava sobre o templo de Delfos, na Grécia (foto acima). Durante mais de 15 séculos, do nascimento ao fim da cultura grega antiga, o Oráculo de Delfos, ou templo de Apolo, serviu como local onde peregrinos vindos das mais diversas latitudes do mundo helênico consultavam as pitonisas, as sacerdotisas oraculares, para saber qual o seu destino, da sua família ou da sua pátria. Delfos tornou-se um dos lugares sagrados mais venerados pelos gregos, sendo que suas previsões e predições tiveram enorme repercussão nos destinos de reis, de tiranos e de muita outra gente famosa daqueles tempos. O interessante é que, para lembra-los de que não se apegassem à imagem do oráculo como objeto externo, já na porta do templo encontrava-se a inscrição que transliterada fica gnōthi seauton ou também gnōthi sauton, em forma contraída da palavra, que significa “conhece-te a ti mesmo”. Ou seja, o maior oráculo está dentro de você mesmo.

O pai da psicanálise Sigmund Freud disse “Know the higher self”, traduzido vulgarmente como “Conhece-te a ti mesmo”, mas tem também o significado “Conheça o ser Supremo (que está em você)”. No filme “Freud além da alma”, a personagem de Freud nos lembra que “há dois mil anos estas palavras estavam escritas no templo de Delfos. Elas são o começo da sabedoria. Nelas está a única esperança de vitória sobre o mais antigo inimigo do homem: a vaidade. Este conhecimento está agora a nosso alcance. Iremos usá-lo? Esperemos que sim.”

Freud percebeu que enquanto crianças, somos como animais selvagens, ainda desprovidos da moral criada pela sociedade. Depois apreendemos os códigos morais, e reprimimos nossos instintos, que nos sonhos falam conosco em enigmas, pois são ideias disfarçadas, já fugindo da repressão social. Se conseguimos decifrar estes enigmas, compreendemos nossos verdadeiros instintos e podemos posicioná-los num bom lugar em nossa existência.

Se quisermos relacionar o saber do corpo-mente que o Yoga desenvolve com os preceitos da psicanálise ocidental, podemos ainda lembrar o que Dr. Breuer (tutor e colega de Freud) nos diz. “Um trauma pode fazer a lembrança do incidente sair do consciente, quando se torna insuportável. Lembranças inconscientes criam sintomas porque estão cercadas de emoções que não acham uma saída natural através da consciência. Por exemplo: se você está cheio de pesar, cai em prantos. Zangado, dá um soco. Assustado, corre. A emoção despertada em você é descarregada na ação física. Mas e se a emoção é sufocada, estrangulada? O fogo não sai. Fica latente e enche a sala de fumaça, os corredores, a sala toda e, finalmente, sai por uma janela. Um sintoma mórbido é apenas energia emocional saindo pelo lugar errado.”

E complementa Freud: “Um trauma pode ser constituído de uma catástrofe, um acidente, uma memória ou um conjunto de memórias intoleráveis e conscientes. Haveria um mecanismo psíquico que defenda a mente contra lembranças intoleráveis, como as glândulas linfáticas fazem com uma infecção no corpo? Um mecanismo de repressão que proíbe tais lembranças de irem para o inconsciente e tranca a porta?” A resposta que encontrou foi sim. E daí nasceu sua teoria sobre as neuroses.

Além de Freud, o grande filósofo Michel Focault também revisitou este conceito e citou os gregos em seu texto “A ética do cuidado de si como prática de liberdade”, em: Ditos & Escritos V - Ética, Sexualidade, Política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004. Focault diz acreditar que “a prática de si, fenômeno bastante importante em nossas sociedades desde a era greco-romana, não tem sido muito estudada [...] Trata-se de uma prática ascética, dando ao ascetismo um sentido muito geral, ou seja, não o sentido de uma moral da renúncia, mas o de um exercício de si sobre si mesmo através do qual se procura se elaborar, se transformar e atingir um certo modo de ser.” E vai ainda mais longe afirmando que trata-se de uma “prática de liberdade”.

O saber yóguico por meio dos Yoga Sutras de Patãnjali fala também de Svadhyaya, ou auto-estudo, que é parte de um conjunto de dicas e preceitos éticos, disciplinas e observâncias (chamados Niyamas) do praticante para com seu mundo interior. Para saber mais sobre Niyamas clique aqui.

Guruji B.K.S. Iyengar praticando Svadhyaya por meio de seus Yogasanas.

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